MULHERES NO MUNDO GAMER: MACHISMO E A FALTA DE REPRESENTATIVIDADE

Em estudo realizado pela Pesquisa Game Brasil (PBG) cerca de 76% dos brasileiros jogam games eletrônicos. Desse percentual, 59% são do sexo feminino, ou seja, as mulheres são a maioria. Mas, infelizmente, o cenário para as jogadoras não é um dos mais amigáveis, como veremos nesta entrevista realizada com as gamers Aline Fioranelli, Amanda Tallya, Beatriz Couto de Oliveira e Daniele Teixeira Miguel.

A gamer Aline é conhecida por ser KitCat do time UFSCar Fire de Overwatch; a gamer Amanda, conhecida como Tallýa,participante do time Amazonas Guardians, e também streammer; a gamer Beatriz Couto de Oliveira conhecida como Bladanna Remary e membro do League of Legends (LoL) do UFSCar Fire; e Daniele Teixeira Miguel conhecida como Ai to tonta e também membro do LoL do UFSCar Fire.

Elas compartilharam com a gente suas experiências pessoais como mulherno mundo gamer, falando como elas se interessaram por esse universo; o que significa ser gamer; as dificuldades em ser mulher e gamer nos jogos (onde o machismo é evidente); e se elas sentem representadas como mulheres nos jogos e o que mudariam dentro desse universo.

COMO E QUANDO VOCÊ SE INTERESSOU POR ESSE UNIVERSO?

Aline – Comecei a jogar videogames bem cedo, em um Super Nintendo que foi dado pelo meu primo. Na época, eu jogava muito Mortal Kombat e Super Mario World, mas conforme cresci, comecei a me interessar mais por jogos de computador do que de console.

Tallya – Lá pelos meus 10 anos comecei jogando games como o Super Mario World, Mario Kart e Sonic. Tive contato com Counter Strike, na época das lan houses, mas confesso que sempre tive muita vergonha porque o ambiente era muito masculino.

Beatriz – Meu primeiro contato foi aos 4 anos com jogos de computador e depois aos 7 com o Mega Drive da minha mãe. Continuei sempre jogando jogos de computador, passando por alguns jogos online como World of Warcraft e Tíbia. Agora jogo LoL competitivamente.

Daniele – Desde muito pequena fui influenciada pelos meus primos mais velhos, que sempre estavam jogando videogames quando eu estava por perto. Na época ainda era no famoso Nintendo 64, ainda que eles tirassem o fio do controle para me iludir que estava jogando, eu ficava vidrada na televisão, achando tudo aquilo maravilhoso. E claro! Achando que eu estava mandando super bem.

O QUE É SER GAMER PARA VOCÊ?

Aline – Adoro jogar e treinar com minha equipe. Ela sempre me apoia muito. Em especial, acho o jogo Overwatch visualmente bonito e as histórias e enredos dos personagens me cativam. Falando competitivamente, só em 2019 pude participar de 5 campeonatos (de Overwatch). Isso foi incrível!

Tallya – Ser gamer não é ser diferente de ninguém. Da mesma forma que pessoas tem gostos diversos como leitura e pescaria, o ato de jogar é o meu gosto pessoal, meu hobby e o que me traz liberdade e realização.

Beatriz – Ser jogadora (competitiva) é um desafio. Tenho que administrar bem meu tempo entre a faculdade, pesquisa científica e vida social com os treinos e jogos de equipe. Já até pensei em parar, mas o time feminino e as outras jogadoras sempre me apoiaram muito para continuar firme (e jogando). Quando jogo com elas me sinto muito bem, na maioria das vezes é uma válvula de escape para extravasar o dia-a-dia.

Danielle – Estar incluída em uma comunidade que tem crescido e ganhado um espaço gigantesco, explicar para as outras pessoas o porquê de não ser só um joguinho. É poder jogar e fazer laços dentro do jogo, com pessoas do outro lado do país.

QUAIS AS DIFICULDADES SENTIDAS POR SER MULHER E GAMER?

Aline – Já ouvi muita coisa machista dentro do Overwatch. No jogo, inclusive, tive que trocar meu nick KitCat porque os outros jogadores suspeitavam que eu era mulher e me tratavam diferente com comentários machistas e de duplo sentido. Já estava cansada disso. Algo que sempre me chama a atenção e incomoda muito é a ofensa. Quando direcionada ao homem é relacionada ao jeito como ele joga: se é ruim ou sem habilidade. Por outro lado, quando é para a mulher a ofensa sempre está pelo fato dela ser mulher. Que o lugar dela não é aquele: ela deve ser isso ou aquilo.

Tallya – A aceitação é extremamente difícil. O pessoal já chega falando que lugar de mulher é na cozinha, preparando comida para o marido. Se você faz algo de destaque no jogo, os comentários são sempre “- Nossa, você tá jogando bem para uma mulher”. Por outro lado, quando você joga mal são instantâneas as reações machistas falando que você tem que voltar para o seu lugar. Particularmente, tive uma experiência muito ruim no jogo Overwatch que registrei no YouTube. As ofensas são pesadas e esse ocorrido me impactou muito emocionalmente. Perdi peso e chorava sem parar. Não acreditava que aquilo estava acontecendo comigo. Quase parei de jogar, mas recebi muito apoio da comunidade e dos dubladores brasileiros oficiais do jogo, que entrarem em contato comigo pra saber como eu estava e me dá suporte em um momento tão difícil.

Beatriz – A comunidade (do LoL) é naturalmente tóxica. Sempre sofri preconceito por ser mulher e querer jogar de um jeito não aceitável, isso me estressa muito. Passo raiva com devidas situações e às vezes tenho até crises de nervosismo. Queria jogar com personagens atiradores, os famosos ADC, mas sempre me empurravam e xingavam para jogar com outro tipo de personagem, o de suporte. Até hoje escuto que aquele espaço não é meu e que devia estar lavando louça, por exemplo.

Danielle – É bem difícil lidar com o pessoal do LoL. Acho que é a comunidade mais tóxica dos games. Já me xingaram muito por não estar indo bem em uma partida, avisando que tinha roupa para lavar e até mesmo com xingamentos pejorativos. Nas primeiras vezes, eu chorava sem entender qual era o problema daquelas pessoas, mas com o tempo me fui calejando e comecei a denunciar para a empresa responsável pelo game (RIOT). Hoje em dia eu desativo o chat do LoL e resolvi esse tipo de problema.

HOJE EM DIA VOCÊ SE SENTE REPRESENTADA DENTRO DOS JOGOS?

Aline – Comparado com os demais jogos, acho ele (Overwacth) mais diversificado e inclusivo. Tem bastante personagem mulher, personagens homossexuais e assexuados. As personagens mulheres são mais reais e isso me causa mais identificação e vontade de continuar jogando.

Beatriz – Definitivamente não. As figuras ali são muito sexualizadas, com seios grandes, cinturais finas e roupas minúsculas. Não existe a representação da mulher como ela é ou pelo menos algo próximo dela.

Danielle – Acho que alguns poucos jogos estão trabalhando muito bem a imagem das personagens femininas, e não ficando naquele clichê da personagem super sexualizada. Mas a maioria ainda permanece com esse estereótipo, o que é bem triste.

SE VOCÊ PUDESSE MUDAR ALGO NA SUA REALIDADE COMO MULHER E GAMER, O QUE MUDARIA?

Alinne – Mudar como as mulheres são reconhecidas. Temos que provar três vezes mais as nossas habilidades para mostrar que realmente somos boas e quando erramos somos linchadas e recebemos comentários machistas. Queria ver também mais mulheres competindo em times mistos. Falta inclusão e incentivo.

Tallya – Mudaria a forma como somos tratadas. Somos muito objeto, sempre classificadas como lerdas e rotuladas, como se não pudéssemos ter habilidade no jogo. O preconceito é muito forte e não deveria existir. Digo isso não somente no mundo gamer, mas no mundo como um todo.

Beatriz – O ideal seria não existir times femininos, mas times mistos com mais mulheres jogando ao lado dos homens. Hoje em dia a comunidade incentiva o contrário e é evidente o desequilíbrio.

Danielle – Acho que mudaria exatamente a questão da representação da mulher dentro dos jogos, com personagens que se assemelham mais com as mulheres reais.

O QUE LHE TROUXE MAIS ORGULHO E O QUE MOTIVA A CONTINUAR JOGANDO?

Alinne – Sinto-me orgulhosa de estar onde estou. Sendo mulher, jogando e jogando muito bem! Jogo em um time misto onde sou a única mulher. Já competimos em três finais, conquistando um título mês passado e eu mesmo sendo mulher estive presente (e jogando melhor que muitos homens).

Tallya – Orgulho da minha força de vontade de continuar e não desistir de jogar. De sofrer com um trauma de machismo e ter superado isso. Hoje em dia me sinto bem imersa nesse mundo, jogando bastante, fazendo transmissões e participando de campeonatos. Sou uma streamer de overwatch e parceira da Ecopoint League. Fico muito feliz que a comunidade feminina esteja ganhando cada vez mais espaço e visibilidade. Na verdade, não só ela, mas a comunidade LGBT também.

Beatriz – Sinto-me muito feliz por fazer parte desse meio e representar não só as mulheres, mas também a minha universidade. Hoje, no time que jogo, tenho a liberdade para me desafiar em novas posições, com estratégias diferentes, sendo sempre apoiada e incentivada pela minha equipe.

Danielle – Superar as dificuldades e continuar jogando apesar de todo ambiente tóxico que possa ter. Encontrar outras mulheres tão fortes quanto eu, que compartilham dessa vontade de se provar dentro do game, ignorando esse pessoal que acha porque tem uma mulher na equipe já perdemos.


CAIO GOBBO

Bacharel em Engenharia Civil pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Mestre em Engenharia Urbana pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana (PPGEU – UFSCar).Hoje é Agente Local de Inovação (ALI) pelo SEBRAE/CNPq e autor convidado do Vamos Escrever para a KROSS.

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